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terça-feira, 2 de março de 2010

“Era linda e tinha tudo para ser feliz”

Junto à encosta sombria da Ponte dos Cernos, o zumbido do vento e a chuva que não dava tréguas, ontem de manhã, arrepiavam os rostos ainda em choque com a tragédia. Cheirava a terra molhada e o chão estava escorregadio, num amontoado de terra e ramos de árvores. Os corpos magros e saturados de quem vive entre Feteira Grande e Algarvia revelavam uma noite sem descanso. Duas freguesias açorianas da ilha de S. Miguel agora de luto.

Eram 08h00 e no fundo da ravina o autocarro desmontado adivinhava a força da enxurrada que atirou para a morte Roberto Amaral, o condutor que não aguentava ver crianças com frio. Destino cruel partilhado por Anabela Silva, de apenas dez anos, que só ontem foi encontrada morta. Estava desaparecida desde segunda-feira, dia do acidente. A menina que gostava de se sentar no banco da frente estava enterrada na lama a poucos metros do autocarro, presa a uma barreira que a impediu de ser arrastada pela ribeira. As roupas e a mochila encontradas junto ao tejadilho puseram em alerta as autoridades, que sentiam cada vez mais perto o momento da descoberta do corpo. Até à fatídica hora. Eram 15h00 quando o corpo frágil da menina foi finalmente avistado. Ainda longe, os gritos da mãe Gabriela cortavam o silêncio. Os homens que nunca se cansaram de escavar recusavam-se a olhar de frente para a mulher do coração despedaçado. "Quem me vai fazer companhia?", gritava a mulher, curvada do cansaço de tanto chorar. "Eu quero a minha filhinha que cantava e dançava para mim. Nem me importava que ficasses com a perna partida como o teu irmão. Ela era linda e tinha tudo para ser feliz", dizia agarrada a uma fotografia já gasta das mãos que não se cansavam de acariciar a cara sorridente da filha. Com as mãos e os pés a tremer, a mãe lamentava a triste sina. De fora, o filho Renato, de 18 anos, olhava para o céu enquanto tentava acalmar o peito da mãe.

Ricardo Silva, irmão gémeo de Anabela, também seguia no autocarro, mas sobreviveu. Está agora a recuperar no Hospital de Ponta Delgada. "Pergunta tanto pela irmã. Está sempre à espera que ela o vá visitar", murmurava o pai Carlos Silva. O menino não sabe que a irmã morreu. "Não sei como lhe vamos dizer", desabafava o homem de 47 anos. De mãos dadas, o casal arriscava pôr os pés no piso que ameaçava ruir para ver a filha pela última vez. "A minha menina era tudo para mim", lamentava o pai.

APONTAMENTOS

65 HOMENS NO RESGATE

Nas operações de resgate do corpo da menina estiveram envolvidos 65 homens da Protecção Civil, PSP e Bombeiros.

MAU TEMPO

O mau tempo, com chuva e ventos fortes, atrasou uma hora o recomeço das buscas. O resgate foi feito manualmente, uma vez que o autocarro estava na ravina a 200 metros de profundidade.

ALGARVIA "ESTÁ TRISTE"

O presidente da Junta de Algarvia, Herculano Dutra, esteve no local. "Algarvia está triste. É um silêncio que até me deixa emocionado", disse.

FUNERAL DE MOTORISTA

O funeral de Roberto Amaral realiza-se hoje pelas 13h00. O cortejo segue da igreja para o Cemitério de Algarvia.

MOTORISTA IA CASAR NO DIA EM QUE MORREU

Roberto Amaral, de 39 anos, era divorciado e deixa dois filhos, de 12 e sete anos. Estava de casamento marcado com Ana Luísa, na segunda-feira, dia em que morreu.

MOTORISTA QUIS TIRAR MENINOS DO FRIO

Sentada no sofá da sala e toda vestida de preto, Olinda Amaral, de 77 anos, perdeu o filho único. Roberto, de 39, era o condutor do autocarro acidentado. Na segunda--feira de manhã apanhou os gémeos Anabela e Ricardo, de dez anos, e o amigo João, de 12, na paragem da Algarvia. Teve pena dos meninos ao frio e levou-os. Essa seria a última viagem. Quando se dirigiam para Santana, o destino foi-lhes cruel. Foram levados por uma derrocada de terras e empurrados para uma ravina. "O Roberto não conseguia ver as crianças nas paragens dos autocarros cheios de frio", contou ao CM uma vizinha. "Era um menino muito bom e não merecia isto", lamentava a mãe enquanto aguardava o caixão para fazer o velório. Viúva há apenas quatro meses, Olinda tem ainda medo de dormir sozinha. "Era ele que vinha dormir comigo. O meu menino nunca me deixava sozinha. Desde que o pai morreu, fazia-me o jantar e ficava cá, apesar de ter casa. Tive um cancro quando o meu marido morreu e o Roberto tinha medo de ficar sem mim. Agora sou eu que fico sozinha", dizia inconformada e com os olhos rasos de água. Olinda fechava os olhos para não ver os retratos do filho espalhados pela sala. Roberto ia casar anteontem com Ana Luísa. Era divorciado e deixa dois filhos, de 12 e sete anos.

"TIRA A MINHA IRMÃO POR FAVOR"

"A minha irmã está ali. Tira-a, por favor", foram as únicas palavras de Ricardo Silva, o irmão gémeo de Anabela quando era salvo, na segunda-feira, pelas 09h30. Tinha a perna partida. A mensagem era para Valdemiro Rocha, o herói que desceu a ravina mal viu o autocarro cair. "Quando cheguei ao fundo os dois rapazes já estavam fora do carro à procura da menina", conta o homem, de 47 anos, que não conseguiu controlar as lágrimas perante a retirada do corpo de Anabela. "Eu bem procurei, mas já não a encontrei", desabafou. Valdemiro salvou duas crianças, mas nem assim consegue esquecer o momento em que viu o autocarro em queda quando seguia na fila de trânsito. "Houve uma travagem repentina e só vi o autocarro a voar de lado. Fui a correr, mas pensei que ninguém ia sobreviver", relata emocionado. "Trouxe os meninos ao colo", recorda em lágrimas.

Fonte: Correio.pt / http://webradiogospel.com / http://webradiogospel.com.br
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